O Brasil é como uma casa com um buraco no telhado.
Quando chove, a água adentra a fenda e inunda todos os cômodos, mas não há como empenhar esforços para consertar o problema, pois a inconveniência gerada pela torrente não permite.
Quando não chove e faz sol, o buraco não representa um problema direto e, justamente por essa razão, não há motivos para se dedicar a consertar aquilo que só se torna um problema quando volta a chover.
É dessa forma que o Brasil, sua população e seus líderes historicamente encararam uma série de desafios prementes e reais. O problema existe e todos reconhecem a sua existência, mas é como se não valesse a pena gastar energia para se preocupar com ele até que sua presença se faça impossível de ignorar.
Assim lidamos com o sistema de saúde pública, que permanece sucateado até que surja uma pandemia que sobrecarregue nossos hospitais e postos médicos.
Assim lidamos com nossos sistemas e procedimentos de combate a catástrofes climáticas, que são desprezados, até que venham enchentes, apagões, tornados ou outros fenômenos naturais que destroem nossas cidades.
E assim, veja só, é como estamos lidando com nossas capacidades de defesa nacional, nossas forças de segurança e nosso poderio bélico.
Precisamente quando uma situação urgente ameaça bater a nossa porta, começamos a nos atentar ao trabalho que já deveríamos ter começado décadas atrás.
Veja-se, é notório que o mundo está menos amistoso. As nações têm passado a dar mais atenção para o que são capazes de conseguir através da força e o direito internacional não parece mais coibir os líderes globais de buscar seus objetivos e interesses.
Após anos assistindo revoluções coloridas ocorrendo, guerras civis ou por procuração eclodindo, e a tensão geopolítica entre potências aumentando cada vez mais, parece que chegamos a um novo patamar de conflitos mundiais.
Não é possível negar, nem ignorar, a absurdidade que é guerra perpetrada pela Rússia contra a Ucrânia, chamada eufemisticamente pelos agressores de “operação militar especial”.
Da mesma forma, são notáveis as reais barbaridades ocorridas durante o conflito entre Israel e Palestina, que levou à morte de milhares de civis antes da pactuação de um acordo de cessar-fogo.
Bem como, em um evento mais recente, não podemos deixar de apontar a falta de bom senso, o real desatino, que é a mais nova guerra que estamos presenciando. Desta vez entre EUA e Irã.
Isso tudo, sem ser preciso mencionar e realizar julgamento valorativo sobre o sequestro do governante da Venezuela – amplamente apontado como ilegítimo, diga-se de passagem – dentro das fronteiras de do próprio país.
Esses exemplos são claros em demonstrar que o mundo está mais caótico e perigoso.
Novamente, sem querer entrar no mérito dos conflitos, há uma afirmação que não pode ser negada: o mundo está afundando em uma série de novas hostilidades internacionais e aqueles que se prepararam para este momento irão se preocupar muito menos do que aqueles que não fizeram nada neste sentido.
Aí, finalmente, voltamos ao Brasil que, como sempre, resolveu não fazer nada em sentido algum.
Quanto ao nosso poderio militar, nos destacamos mundialmente, é verdade. Somos, atualmente, a 11ª maior potência militar existente.
Mas isso é mais do que esperado para um país com mais de 200 milhões de habitantes e com a 5ª maior extensão geográfica do globo. É o mínimo.
Ocorre que não é segredo que, apesar de nossos números e de nossa geografia de difícil domesticação, nossas Forças Armadas nem sequer ameaçam fazer páreo com as mais avançadas existentes.
Nós não temos um sistema aeroespacial desenvolvido, o que significa que não temos capacidade plena de produzir e operar mísseis balísticos.
Não temos indústria pesada e de tecnologia desenvolvida, o que significa que não possuímos capacidade de competir no patamar das guerras contemporâneas.
Ainda, um dos tópicos mais polêmicos, não temos tecnologia atômica militar, o que nos exclui do clube de países capazes de oferecer a ameaça – ou defesa – maior contra eventuais opositores.
Não temos satélites próprios para reconhecimento. Não temos drones para suprir as demandas dos conflitos atuais. Não temos uma indústria capaz de produzir equipamentos modernos o suficiente.
Ou seja, não fizemos o trabalho de casa.
Voltando à analogia inicial, em termos de poderio bélico e capacidade de defesa nacional, temos uma casa com um grande buraco no teto e só agora passamos a ouvir nossos líderes falarem sobre a necessidade de consertá-lo.
O Presidente da República passou a apontar a necessidade de “se preparar para defesa”, demonstrando preocupação com o desenvolvimento das forças.
O Ministro da Defesa apresentou um plano de investimento na ordem de R$ 800 bilhões para modernizar o Exército, a Marinha e a Aeronáutica.
A população, veja só, passou a discutir a necessidade e possibilidade de desenvolver um programa nuclear nacional como possível ferramenta de dissuasão.
Contudo, isso não é nada mais do que a natural preocupação que vem com a chuva que agora estamos vendo se aproximar.
E a realidade é que é mais lúcido esperar pela piora do quadro de conflitos globais do que a melhora.
Neste sentido, é razoável acreditar que o Brasil se encontra ameaçado pelas potências avançadas militarmente ou, se ainda não está, poderá passar a estar dentro dos próximos anos, dada a existência de riquezas incomensuráveis em nossas terras altamente cobiçadas.
Mas, o ponto fulcral dessa discussão é que passamos os dias de sol focando em implementar os soldos de nossos oficiais, quando deveríamos ter investido pesadamente no desenvolvimento de uma indústria militar, na criação de uma cultura de defesa e na pesquisa de novas tecnologias de combate.
No presente momento, se sequer cogitarmos o início de um programa nuclear com fins bélicos; se um e-mail for trocado por funcionários do alto escalão do governo federal, não há dúvidas de que seremos sabotados e alvejados por potências estrangeiras, pois elas não irão aturar mais uma nação competidora no cenário mundial.
Da mesma forma, se nos apressarmos em aplicar um plano de modernização de nossas forças, nos limitaremos a pagar caro por equipamentos e tecnologias estrangeiras obsoletas ou de segunda mão, pois ninguém estará disposto a nos dar o que possuem de mais evoluído.
Os EUA não nos concederão seus jatos furtivos; os russos não nos emprestarão suas ogivas nucleares; os chineses não nos ofertarão sua frota naval.
Caberá a nós correr atrás do prejuízo e não nos resta escolha.
É preciso admitir que esse barco já partiu e que teremos de lidar com todos os ônus derivados da preguiça e da inação pretérita. Se formos tentar sanar nossas desvantagens, teremos de começar imediatamente, mas tendo a certeza de que sem o desenvolvimento nacional próprio não iremos a lugar nenhum.
Isso significa que precisamos baixar a cabeça e trabalhar.
Não podemos contar cegamente com nossos parceiros globais neste ponto, pois eles também compartilham da preocupação com a segurança de sua própria soberania.
O investimento é bem-vindo e necessário, mas, neste momento, precisa ser estratégico e realista.
Primeiramente precisamos focar na pesquisa e desenvolvimento de tecnologias e armamentos, no treinamento e preparação de nossos nobres soldados e, acima de tudo, no desenvolvimento de nossa indústria militar, para que esta seja capaz de suprir nossas necessidades de defesa.
Enquanto isso não for feito, nos resta apostar nossas fichas em nossa prestigiosa diplomacia e torcer para que o Itamaraty seja capaz de evitar que a tempestade que se forma no mundo inteiro chegue às nossas fronteiras. No mais, precisamos superar para ontem esta cultura nacional de comodismo e contentamento. Precisamos passar a pensar o Brasil em séculos e não em mandatos de quatro anos.
Autor: João Kochella