Na última semana, a newsletter do jornalista Thiago Prado, denominada Jogo Político, entrevistou o senador de Minas Gerais Cleitinho Azevedo (Republicanos), em busca de informações sobre seus planos de concorrer, ou não, ao governo de seu estado natal.
A entrevista com o senador foi responsável por divulgar uma série de falas polêmicas do senador, mas uma delas, especificamente, chama a atenção por exemplificar aquelas que parecem ser as intenções de muitos dos políticos eleitos em nosso país.
Desde o início, é exaltado o amor do senador pelo futebol e exposta a forma casual com que aparenta lidar com o jogo político.
Demonstrando segurança sobre sua posição na possível disputa eleitoral, Cleitinho faz comparações de sua atuação com a de artistas; diminui a importância do fato de não ter educação formal; aponta que o sufrágio dos brasileiros se fundamenta na emoção; e explica que não tem pressa em se colocar como pré-candidato ao governo de Minas Gerais, pois está mais preocupado em ver os jogos da Copa do Mundo de Futebol.
Gente como a gente, alguns poderiam dizer. Um homem autêntico…
Contudo, a realidade é que Cleitinho escancara o verdadeiro estado calamitoso do quadro de representantes do povo brasileiro.
Infelizmente, muitos políticos aparentam buscar projeção pessoal, poder ou dinheiro, não se preocupando em exercer as funções típicas de seus cargos e limitando-se a agir como atores muito bem pagos, mais preocupados com visibilidade do que com o destino da pátria.
E, no caso em análise, a situação se mostra ainda mais complicada, quando reparamos que Cleitinho é senador federal, atuando na Câmara Alta do Congresso Nacional, a casa que deveria representar os interesses dos entes federativos do país, ao congregar, em suas cadeiras, as mentes políticas mais experientes e capazes da nação.
Não é à toa que a expressão “senado” deriva do termo originado no antigo direito romano, “senatus”, palavra em latim utilizada para se referir ao conselho de anciãos responsável pelas deliberações políticas da sociedade romana, instituição criada na época monárquica, mas que perdurou até o fim do império.
Inclusive, a palavra “senado” está diretamente relacionada à palavra “sênior”, ainda utilizada hoje em dia, mas também oriunda do latim, sendo inicialmente empregada para se referir a pessoas mais velhas.
Com isso em mente, perceber que um senador da República não parece se importar com o exercício da política institucional é tão chocante quanto revoltante.
Poderíamos ter brasileiros exemplares como nossos representantes. Cidadãos sábios, responsáveis, esclarecidos e interessados em mudar o Brasil para melhor. No entanto, elegemos figuras populares que demonstram pouco compromisso com a população.
O próprio senador demonstra ser um político muito hábil à frente das câmeras, apesar de ser uma decepção ao usar as palavras.
O senador, acertadamente, dá o diagnóstico de que “não é porque tem mestrado e doutorado que vai ter voto. Se fosse assim, o Lula nunca teria chegado onde chegou. Voto é emocional, é sentimento.”
Tal colocação parece possuir embasamento na realidade. O brasileiro vem elegendo seus representantes a partir da conexão que sente com cada candidato e não a partir de sua preparação técnica.
Na prática, as eleições operam como concursos de popularidade em que a capacidade técnica e intelectual, a experiência, o conhecimento e as intenções pouco importam, pois ganha aquele que consegue animar mais a torcida. Ganha aquele que instiga mais ódio contra o opositor. Ganha aquele que faz vídeos mais viralizáveis.
Mas isso é correto? É disso que a democracia se trata? Eleger o mais carismático, enquanto o mais capaz e preparado é jogado ao ostracismo?
Notem que irritar-se com a colocação do senador não é elitismo ou afeição à tecnocracia. É um raciocínio lógico. Quando falamos da gestão da Administração Pública, não é segredo que o indivíduo preparado vai se sair melhor do que o animador de torcida.
Nós já tivemos experiências como essa em todos os níveis da política nacional, e é evidente que tal estratégia não vem dando certo. Optar pelo político simpático e popular não parece ser o caminho para a resolução dos problemas estruturais de nosso país.
Significa dizer que nossas eleições devem ser substituídas por concursos públicos em que passam aqueles que mais decoram leis ou que possuem mais educação formal? De forma alguma, pois esse também não é um caminho viável!
Também não significa dizer que aquele com mais diplomas será o melhor gestor ou representante, uma vez que a função política demanda qualidades e habilidades muito mais complexas do que aquelas que são ensinadas nas faculdades.
Mas é preciso trazer à luz a disfuncionalidade dos processos eleitorais pátrios, que elegem políticos que falam muito e fazem pouco, desconsiderando completamente o seu preparo para a função que busca exercer.
De toda forma, Cleitinho segue sua entrevista afirmando ter “nojo de qualquer coisa que envolva partido”, demonstrando possuir a tradicional aversão à conhecida “velha política”, caracterizada pelo fisiologismo, corporativismo, nepotismo e pela troca de favores pouco republicanos.
A declaração faz sentido, pois o próprio senador se posiciona como um político inovador, livre dos vícios característicos dos caciques partidários convencionais e avesso à sua forma de fazer política.
Então esse seria um posicionamento louvável do senador? Na verdade, não, pois ele deixa bem clara a sua aversão à estrutura democrática desejável e escancara sua falta de interesse em compreender as razões de ser do Estado Democrático de Direito.
É bem verdade que, no geral, os partidos políticos, assim como os próprios políticos, caíram em total descrédito perante a opinião pública, haja vista a lista interminável de casos de corrupção e mau uso da máquina pública.
É completamente compreensível que grande parcela do povo esteja insatisfeita com o modelo democrático adotado e, em razão disso, é fácil entender a jornada de ascensão dos políticos “outsiders”, notórios por negar a política ao mesmo tempo em que se candidatam aos cargos eletivos disponíveis.
Agora, qual é a solução possível para a falência da estrutura político-partidária vigente? A eleição de agitadores que admitem com orgulho sua baixa instrução técnica? Acredito que não.
Muito mais interessante parece ser colocar em prática uma série de mecanismos de controle da atividade partidária, reduzir a quantidade de dinheiro público destinada às campanhas eleitorais, limitar o número de partidos políticos existentes, mas, acima de tudo, passar a exigir dos pretendentes a representantes do povo seriedade e responsabilidade para com o exercício de sua função.
De nada adianta atacar as estruturas partidárias se elas são compostas por políticos eleitos. Da mesma forma, de nada adianta atacar o Congresso Nacional quando ele é um reflexo direto daqueles que ocupam suas cadeiras.
Novamente, é muito interessante eleger um político que seja bom em comunicar e representar os interesses de seus eleitores, mas é preciso analisar se estamos lidando, simplesmente, com um bom marketeiro ou com um homem público realmente capaz de pôr em prática os valores em que diz acreditar.
E aí chegamos ao ponto principal da entrevista: a declaração mais polêmica e a pior de todas.
Para não haver nenhuma possibilidade de distorção do que o senador afirmou, copio abaixo o trecho integral disponível na matéria:
“Entrei na política para aparecer, não sou hipócrita. Nunca nem tive título de eleitor, só queria ser famoso — afirma, para depois realmente dizer o seu sonho, que nada tem a ver com o comando do Palácio da Liberdade. — Na verdade, queria ser comentarista de futebol ou apresentador de TV igual ao Ratinho. Se um dia tiver uma proposta, largo essa merda aqui.”
Aqui o senador parece cometer um sincericídio revelador. Sejamos justos ao observar que ele afirma não ser um hipócrita, e não parece ser mesmo, pois não esconde aquilo que pensa.
Todavia, aquilo que expressa, infelizmente, exemplifica a situação preocupante de nosso atual quadro de representantes.
Em que momento se tornou aceitável um senador da República afirmar que “só queria ser famoso”?
Em que momento paramos de enxergar nossos representantes como operadores da vontade constitucional e passamos a permitir que sua atuação se resuma à busca do estrelato?
Não é aceitável que elejamos figuras que se sustentam nos espaços de poder mais importantes da nação sem demonstrar o mínimo respeito pela posição que ocupam e pelo povo que os colocou lá.
Da mesma forma, não parece admissível que um senador possa simplesmente declarar que “Se um dia tiver uma proposta, largo essa merda aqui”, ao se referir à sua posição no Senado Federal, sem que seja responsabilizado nas urnas por sua falta de respeito com o próprio cargo.
Essa “merda” à qual o senador se refere nada mais é do que uma das três posições destinadas a representar os interesses de todo o estado de Minas Gerais.
Somente três mineiros podem ocupar os cargos de senador da República por vez, tamanha a sua importância, e é essa posição que Cleitinho desdenha e desmerece.
Ver uma posição política que deveria ser totalmente instrumentalizada para satisfazer a vontade popular, buscando a concretização dos objetivos plasmados na Constituição Cidadã, sendo tratada como dejeto por um senador eleito é mais do que motivo para se revoltar com o atual estado das coisas na política nacional.
E, pior ainda, é notar que Cleitinho não é o único ponto fora da curva no Senado Federal. É uma realidade que a Câmara Alta não é exatamente composta pelo que há de melhor na política brasileira. Na verdade, muitos outros políticos não parecem estar à altura do cargo que ocupam.
De um político espera-se alguém altivo, capaz, responsável, justo, honesto e uma série interminável de adjetivos positivos, e é claro que, no Brasil, não podemos esperar tanto de nossos representantes, afinal de contas, são pessoas como todos nós.
Mas quando passamos a aceitar tamanha falta de consideração com o exercício representativo e legislativo?
Quando a nossa régua passou a ficar tão baixa, a ponto de os próprios políticos eleitos não darem mais valor a seus próprios cargos?
Quando passou a ser razoável, do ponto de vista do decoro necessário a um parlamentar, um senador da República se referir de tal forma à sua própria função?
Mas, o mais importante, até quando continuaremos a aceitar condutas como essa de nossos representantes, sem responsabilizá-los nas urnas?