Semana de 22 a 27 de abril de 2026
Por Guilherme de Toledo & João Vítor de Carvalho
A semana foi marcada por um duplo golpe nos mercados: as negociações de paz entre EUA e Irã naufragaram, o Estreito de Ormuz voltou a ser bloqueado e o Brent retomou a trajetória de alta, encerrando acima de US$ 94 por barril. Ao mesmo tempo, os investidores se preparavam para a semana mais densa do calendário de política monetária de 2026 — em que Fed, Copom e BCE anunciarão suas decisões em uma janela de menos de 48 horas. O Brasil, paradoxo perfeito, encerrou a semana como o mercado acionário de melhor desempenho no mundo no acumulado do ano — e com inflação projetada pelo Focus acima do teto da meta pela sétima semana consecutiva.
| DESTAQUE DA SEMANA Ormuz Fechado de Novo — A Negociação que Afundou |
O ponto de virada da semana ocorreu na noite de quinta-feira (23): o governo iraniano anunciou que não retomaria as conversas de paz enquanto os EUA mantivessem ameaças ao país — e o Irã voltou a bloquear a passagem de embarcações pelo Estreito de Ormuz. A notícia desfez o otimismo que havia prevalecido na semana anterior, quando um acordo de trégua temporária havia levado o petróleo a recuar e as bolsas globais a avançar. Na sexta (24), surgiu a possibilidade de negociações serem retomadas no Paquistão durante o fim de semana, o que atenuou levemente a alta do barril.
| Indicador de Energia | Valor | Variação semanal |
| Brent (barril) | US$ 94,30 | +13,0% |
| WTI (barril) | US$ 92,13 | +12,0% |
| Brent – acumulado desde 28/02 | — | +~27% |
| Dólar / Real | R$ 4,98 | −0,32% no dia |
Na quarta-feira (22), o Brent chegou a tocar US$ 100 ao longo do pregão, com a aproximação do prazo final de um cessar-fogo. Mais tarde, Trump anunciou a extensão da trégua — o que fez o barril recuar para a faixa dos US$ 97. A volatilidade foi intensa: analistas citados pela Bloomberg apontam que o mercado acionário global tem mostrado maior resiliência frente ao petróleo do que nos choques anteriores, mas o mercado de renda fixa permanece mais nervoso — especialmente na Europa.
“Conflitos bélicos mudam expectativas diariamente, elevam a volatilidade e tornam o mercado muito mais sensível a notícias e rumores. Foi exatamente isso que vimos esta semana.”
— Cesar Queiroz, CEO da Queiroz Investimentos e Participações
O impasse no Estreito renova a preocupação central apontada pelo FMI em seu World Economic Outlook de abril: caso a perturbação energética se prolongue, a economia global entra em um cenário adverso com crescimento de apenas 2,5% e inflação de 5,4% em 2026 — contra o cenário-base de 3,1% e 4,4%. O relatório destaca que emergentes importadores de commodities são os mais expostos.
| MERCADOS GLOBAIS Ibovespa perde na semana, lidera no ano — S&P e Nasdaq renovam recordes |
A semana foi de dois tempos para os mercados acionários. Na quarta-feira (22), enquanto o Ibovespa caía 1,65% refletindo o fechamento do Estreito de Ormuz e a alta das expectativas de inflação doméstica, S&P 500 e Nasdaq renovaram máximas históricas em Nova York, reagindo ao anúncio de extensão do cessar-fogo por Trump e aos resultados sólidos de Intel — que reforçaram o apetite por ações de semicondutores e inteligência artificial. No acumulado da semana (22 a 24/04), o Ibovespa registrou queda de 2,55%, com o índice encerrando a segunda-feira (27) aos 189.578 pontos, nova queda de 0,61%.
| Índice | Desempenho semanal (22–24/04) | Acumulado no ano (em USD) |
| Ibovespa (Brasil) | −2,55% | +29,55% |
| S&P 500 (EUA) | Novo recorde histórico | +4,57% |
| Nasdaq (EUA) | Novo recorde histórico | — |
| Peru (SPBLPGPT) | — | +17,21% |
| Colômbia (COLCAP) | — | +14,71% |
O paradoxo brasileiro é notável: apesar das quedas recentes, o Ibovespa acumula alta de 29,55% em dólares no ano — desempenho que supera o S&P 500 (+4,57%) e coloca o Brasil como um dos principais destinos de capital no universo emergente. O movimento é sustentado, em grande medida, pelo fluxo estrangeiro: em abril, entraram R$ 3,15 bilhões na B3 por parte de investidores internacionais.
A pressão doméstica sobre o índice vem da curva de juros: a alta das expectativas de inflação para 2026 — que o Focus desta segunda-feira (27) elevou para 4,86% — reforça a percepção de que a política monetária deve permanecer restritiva por mais tempo. Bancos e grandes blue chips foram os mais penalizados na semana. A Petrobras funcionou como amortecedor: PETR3 e PETR4 subiram acompanhando o petróleo, mas sem força para impedir a queda do índice. A Vale recuou com a desaceleração da demanda chinesa.
No câmbio, o dólar à vista encerrou a segunda-feira (27) a R$ 4,98, com queda de 0,32% no dia. A apreciação do real reflete o papel do Brasil como exportador líquido de petróleo — e a percepção crescente de que o país se beneficia, na margem, do choque energético global.
| POLÍTICA MONETÁRIA — EUA A Última Reunião de Powell: Fed Deve Manter e Aguardar |
O FOMC se reúne nos dias 28 e 29 de abril em um contexto duplo: a inflação voltou a acelerar e o mercado de trabalho deu sinais de recuperação. O CPI de março avançou a 3,3% ao ano — acima dos 2,4% de fevereiro — enquanto o payroll do mesmo mês surpreendeu positivamente com 178.000 novas vagas, superando as expectativas. O resultado é que qualquer expectativa de corte em abril foi definitivamente descartada.
| Indicador | Dado mais recente | Referência |
| Fed Funds Rate (atual) | 3,50% – 3,75% | Mantida em mar/26 |
| CPI (março/26) | 3,3% a/a | vs. 2,4% em fev/26 |
| Payroll (março/26) | +178.000 vagas | Acima das projeções |
| Prob. manutenção (Polymarket) | 99,9% | Reunião abr/26 |
| Cortes projetados em 2026 | 1 corte (dot plot) | Provável em dez/26 |
O foco do mercado não é a decisão em si — que já está precificada a 99,9% de probabilidade de manutenção —, mas o comunicado do FOMC e a coletiva de Powell. Dois pontos serão monitorados com atenção: (1) se o Fed adicionará linguagem sinalizando a possibilidade de alta de juros caso a inflação não recue; e (2) o que Powell dirá sobre o mandato de Kevin Warsh, seu sucessor indicado por Trump, que aguarda confirmação no Senado.
A reunião de abril marca o último FOMC presidido por Jerome Powell como chair: seu mandato encerra em 15 de maio. Powell deve permanecer no conselho de governadores até janeiro de 2028, mas ainda não confirmou publicamente se renunciará ao cargo após o fim da presidência. Warsh, ex-braço direito de Ben Bernanke durante a crise de 2008-09, é visto pelo mercado como hawkish e como uma fonte de estabilidade institucional — especialmente em um ambiente de inflação resistente.
“O mercado de trabalho está razoavelmente forte e a inflação voltou a subir. Tudo aponta para: não fazer nada agora — mas a linguagem do comunicado pode mover os juros futuros.”
— Estrategistas de Wells Fargo Investment Institute
| POLÍTICA MONETÁRIA — EUROPA BCE: Manutenção em Abril, Alta Quase Certa em Junho |
O Banco Central Europeu (BCE) reúne-se em 29 e 30 de abril em uma posição ainda mais difícil do que a do Fed: a Europa depende muito mais do petróleo do Golfo do que os EUA, e a inflação da zona do euro já saltou para 2,5% em março — acima do objetivo de 2% — puxada pela energia. A taxa de depósito está atualmente em 2,0%, após a sequência de cortes dos últimos dois anos.
| Indicador | Dado | Contexto |
| Taxa de depósito do BCE (atual) | 2,00% | Mantida em mar/26 |
| Inflação zona do euro (mar/26) | 2,5% | Acima da meta de 2% |
| Prob. alta em abril (mercados) | ~10% | Reunião de 30/04 |
| Prob. alta em junho (mercados) | ~90% | Alta de +25bps precificada |
| Alta total esperada até dez/26 | +50bps | Taxa terminal ~2,50% |
A ata da reunião de março do BCE, divulgada na semana passada, revelou o debate interno: Isabel Schnabel apresentou dados mostrando que a tendência de corte de 25bps que havia antes do conflito se inverteu drasticamente. Os membros do conselho reconhecem que ‘a gravidade e a duração esperadas do choque energético têm sido mais contidas até ao momento’, mas alertam que ‘a memória fresca’ do surto inflacionista de 2022 pode acelerar a propagação às expectativas.
A decisão de 30 de abril deve ser manutenção — mas Christine Lagarde precisará sinalizar com clareza suficiente que junho é o momento mais provável para a primeira alta, sem fechar a porta para uma surpresa em abril caso os dados de inflação da zona do euro, divulgados na mesma manhã, venham acima do esperado. O PIB da zona do euro do primeiro trimestre também será publicado na quinta-feira — tornando 30 de abril um dos dias mais densos do calendário econômico europeu em 2026.
| ECONOMIA BRASILEIRA Copom corta 0,25 pp — mas o debate é sobre junho |
O Comitê de Política Monetária (Copom) se reúne também em 28 e 29 de abril. O consenso de mercado — ratificado pelo Boletim Focus desta segunda-feira (27) — é de um corte de 0,25 ponto percentual na Selic, levando a taxa de 14,75% para 14,50% ao ano. A decisão em si, portanto, já está praticamente encaminhada. O verdadeiro debate é sobre o comunicado: o BC sinaliza ‘porta aberta’ para acelerar em junho, ou mantém tom cauteloso indefinido?
Boletim Focus — 27 de abril de 2026
| Variável | Projeção atual | Semana anterior | Tendência |
| IPCA 2026 | 4,86% | 4,80% | ↑ 7ª alta consecutiva |
| IPCA 2027 | 4,00% | 3,99% | ↑ |
| Selic (dez/2026) | 13,00% | 13,00% | Estável |
| Selic (dez/2027) | 11,00% | 11,00% | Estável |
| PIB 2026 | 1,85% | 1,86% | → |
| Câmbio (dez/2026) | R$ 5,25 | R$ 5,30 | ↓ |
O IPCA projetado para 2026 chegou a 4,86% — acima do teto da meta de 4,5% pelo sétimo Focus consecutivo. Há um mês, a projeção estava em 4,17%. A escalada é diretamente ligada ao choque energético: analistas da XP Investimentos estimam que o cenário atual exige uma ‘resposta da política monetária’, projetando que o Copom cortará 0,25 ponto em abril e, a partir de junho, voltará a um ritmo de cortes de 0,50 pp — mas condicionado ao recuo do petróleo.
O presidente do BC, Gabriel Galípolo, já sinalizou que é preciso ‘tempo para entender’ os impactos da guerra e que o Brasil tem uma ‘gordura’ por ter mantido juros elevados em 2025. A ata de março foi clara: os ‘próximos passos dependerão da duração do conflito no Oriente Médio’. Esse framing coloca enorme peso sobre o que o comunicado de quarta-feira dirá — e sobre se Galípolo usará a coletiva para dar mais pistas sobre a velocidade do ciclo.
“O choque de oferta em uma economia aquecida, com expectativas inflacionárias acima da meta, requer uma resposta da política monetária.”
— Relatório mensal da XP Investimentos, abril de 2026
Brasil como Destino de Capital — O Paradoxo de 2026
Analistas do Bank of America (BofA) emitiram relatório chamando os ativos brasileiros de ‘livres de risco’ e o país de ‘novo ouro’ — referência à posição do Brasil como exportador líquido de petróleo em um mundo com energia cara. O BTG Pactual revisou para cima a projeção de superávit da balança comercial brasileira, que deve alcançar US$ 90 bilhões em 2026. O dólar caindo para a faixa de R$ 4,98 reforça a tese: o Brasil é um dos poucos emergentes que se beneficia do petróleo alto sem sofrer os custos de ser importador.
A dívida pública federal, divulgada nesta segunda-feira (27) pelo Tesouro Nacional, caiu 2,34% em março em relação ao mês anterior, chegando a R$ 8,633 trilhões — em mês marcado pela alta do custo da dívida atrelada à Selic e por incerteza elevada com o conflito no Oriente Médio. Resultados do primeiro trimestre de empresas do Ibovespa também ocuparam a agenda: a Gerdau registrou lucro líquido ajustado de R$ 1 bilhão no 1T26, alta de 33,8% ante o mesmo período de 2025.
| FMI — WORLD ECONOMIC OUTLOOK (ABRIL 2026) “A Economia Global à Sombra da Guerra” |
O FMI divulgou em 14 de abril seu World Economic Outlook de primavera, com o título revelador: ‘Global Economy in the Shadow of War’. O relatório revisou para baixo as projeções de crescimento global em 0,3 ponto percentual para 2026 e 2027, e para cima as de inflação — revertendo o ciclo de desinflação que havia prevalecido até o início do conflito.
| Cenário FMI | Crescimento global 2026 | Inflação global 2026 | Hipótese central |
| Referência (base) | 3,1% | 4,4% | Conflito curto, energia +19% |
| Adverso | 2,5% | 5,4% | Ormuz fechado + expectativas piores |
| Severo | 2,0% | acima de 6% | Perturbação se estende a 2027 |
| Pré-guerra (jan/2026) | 3,4% | — | Referência anterior |
O relatório aponta que emergentes e países de baixa renda importadores de commodities são os mais vulneráveis. A revisão para baixo para mercados emergentes e em desenvolvimento é de 0,3 ponto percentual para 2026. A China foi exceção: sua projeção subiu levemente para 4,4% — beneficiada por carryover do forte desempenho de 2025 e pela redução das tarifas americanas após a decisão da Suprema Corte dos EUA sobre os IEEPA tariffs em janeiro de 2026.
O FMI foi explícito sobre o dilema dos bancos centrais: podem, em geral, ‘olhar além’ de um choque de energia, mas apenas enquanto as expectativas de inflação permanecerem ancoradas. Se wages e preços começarem a reagir, a restauração da estabilidade de preços deve ter prioridade sobre o crescimento — com aperto rápido. O conselho para a política fiscal é de cautela: medidas de subsídio de combustíveis (como a já adotada pelo Brasil) devem ser temporárias e bem direcionadas.
| AGENDA Super Quarta-Quinta: A Semana mais Densa de 2026 |
A semana que começa nesta terça-feira (28) é provavelmente a mais densa do calendário econômico de 2026: Fed, Copom e BCE decidem juros dentro de uma janela de 48 horas. Nunca os três grandes bancos centrais estiveram tão próximos cronologicamente — e tão divididos sobre o que fazer.
Terça-feira, 28/04
- Início da reunião do FOMC (EUA) — encerra quarta.
- Início da reunião do Copom (Brasil) — encerra quarta.
- Banco do Japão (BoJ): decisão de política monetária + coletiva do governador Ueda.
- EUA: confiança do consumidor (Conference Board), dados de abertura de vagas (JOLTS).
Quarta-feira, 29/04 — Super Quarta
- DECISÃO DO COPOM: expectativa de corte de 0,25 pp na Selic (de 14,75% para 14,50%). Foco no comunicado sobre junho.
- DECISÃO DO FED (FOMC): expectativa de manutenção em 3,50%–3,75%. Última reunião de Powell como chair. Coletiva às 14h30 (horário de Brasília).
- EUA: PIB preliminar do 1T26 — termômetro da resiliência americana. Custos do trabalho (ECI). IGP-M e IPP no Brasil.
Quinta-feira, 30/04
- DECISÃO DO BCE: manutenção dos juros em 2% esperada; debate sobre início do ciclo de alta em junho. Coletiva de Christine Lagarde.
- Zona do Euro: PIB do 1T26, inflação de abril e taxa de desemprego de março — todos divulgados antes da decisão do BCE.
- Banco da Inglaterra (BoE): decisão de política monetária + ata do MPC.
- Brasil: taxa de desemprego, resultado primário e balanço orçamentário do governo central.
Sexta-feira, 1/05 — Feriado do Dia do Trabalhador
- Mercados brasileiros fechados. EUA: payroll de abril — dado mais importante do mês.
- Europa: Discurso de Andrew Bailey (BoE).
| POLÍTICA Análise Política da Semana |
| O ministro do STF Gilmar Mendes assumiu o protagonismo na continuidade do Inquérito das Fake News, substituindo o ministro Alexandre de Moraes, que se encontra fragilizado após o caso do Banco Master. Mesmo após sete anos de duração e sem um prazo definido para o encerramento, Mendes argumenta que a manutenção das investigações é vital para conter ataques ao STF e proteger o Estado de Direito, sustentando que o inquérito deve permanecer ativo pelo menos até as eleições de outubro. Entretanto, essa postura se intensificou após as manifestações do pré-candidato à presidência Romeu Zema, isso pois, Romeu utilizou suas redes sociais para divulgar uma série de vídeos chamados “Os Intocáveis”, nesses vídeos o STF é satirizado por decisões recentes de seus ministros. Com isso, as críticas sobre o uso político do inquérito cresceram, especialmente após o Gilmar defender a inclusão de Romeu Zema. Essa expansão do escopo investigativo tem fornecido munição aos críticos, que enxergam na medida uma forma de intimidação política. Enquanto isso, a tramitação do fim da escala 6×1 ganhou força com a aprovação da admissibilidade das Propostas de Emenda à Constituição (PECs) pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) da Câmara dos Deputados. Agora, o debate segue para uma comissão especial que definirá os detalhes práticos da transição. O presidente da Câmara, Hugo Motta, acelerar ao processo, com o objetivo de concluir a votação do plano de transição em até de 30 dias, tendo o fim de maio como prazo. Enquanto o Legislativo acelera, o Governo Federal tenta manter relevância no tema através de um projeto próprio para reduzir a jornada para 40 horas semanais sob urgência constitucional. Contudo, apesar de a pauta favorecer o discurso governista, o protagonismo e o controle político da tramitação estão nas mãos do Congresso, deixando o Executivo em uma posição secundária na condução dessa mudança trabalhista. Já na política paranaense, os resultados da pesquisa Quaest/Genial mostraram uma fragilidade na base governista do Paraná, gerando temores que a candidatura de Sandro Alex à sucessão de Ratinho Junior não tenha força eleitoral suficiente. Com Sergio Moro liderando as intenções de voto, os 19 deputados estaduais do PSD temem que uma chapa majoritária fraca prejudique suas próprias reeleições, provocando uma possível debandada de prefeitos e cabos eleitorais. Esse cenário de insegurança fortalece a articulação de uma frente de centro-direita, composta por MDB, Republicanos, Podemos, União Brasil e PP, em torno dos nomes de Alexandre Curi para o governo e Rafael Greca como vice. O movimento para viabilizar a chapa Curi-Greca busca reorganizar a política paranaense e isolar Moro, inclusive com estratégias para limitar a presença de figuras do bolsonarismo nacional no estado. Enquanto Ratinho Junior tenta sustentar o nome de Sandro Alex, o favoritismo de Curi entre os prefeitos e a pressão da numerosa bancada do PSD colocam o governador em um dilema: insistir em um sucessor que não demonstra viabilidade nas pesquisas ou garantir a unidade política e evitar um naufrágio eleitoral em 2026. |
| ANÁLISE Brasil no Olho do Furacão — e na Melhor Posição |
O Brasil vive em 2026 um momento paradoxal que poucos analistas anteciparam: é o país emergente mais beneficiado por um choque que ameaça devastar a economia global. A combinação de exportador líquido de petróleo, câmbio apreciado e mercado acionário de melhor desempenho do mundo parece boa demais para ser verdade — e, de certa forma, é.
A armadilha está na inflação. O mesmo choque de oferta que eleva as receitas da Petrobras, melhora o saldo comercial e aprecia o real também alimenta a inflação via diesel, fertilizantes e fretes — e reacende as expectativas inflacionárias. O Focus de 27 de abril colocou o IPCA projetado para 2026 em 4,86%, acima do teto da meta de 4,5% pela sétima semana consecutiva. O Copom, que deveria estar acelerando o ciclo de cortes neste momento, é forçado a andar na ponta dos pés.
O comunicado de quarta-feira (29) será decisivo. Há dois cenários possíveis: (1) o Copom sinaliza abertura para acelerar os cortes caso o petróleo recue e a inflação arrefeça — o que o mercado interpretaria como dovish e poderia impulsionar os ativos de risco; ou (2) o Copom adota um tom genuinamente data-dependent, sem compromisso sobre o ritmo futuro — o que preserva a credibilidade mas pode frustrar quem esperava clareza sobre junho. O presidente Galípolo já deu indicações de que prefere a segunda abordagem.
No campo externo, o grande risco permanece sendo a duração do conflito. Um Estreito de Ormuz fechado por mais de dois meses começa a gerar escassez física de petróleo além dos efeitos de preço — algo que os mercados ainda não estão precificando completamente. A semana que se inicia pode trazer alguma clareza: se as negociações no Paquistão produzirem resultados, o Brent pode recuar abaixo de US$ 85 e o mercado voltará a apostar em cortes mais agressivos dos bancos centrais. Se fracassarem, a estagflação global — baixo crescimento com inflação persistente — deixará de ser risco para se tornar cenário central.
“A pergunta não é sobre os números, mas sobre o quão permanente é esse fenômeno. E isso ainda não tem resposta.”
— Samuel Pessôa, economista, BTG Pactual
Para o Brasil, o horizonte imediato é de expectativa: a Super Quarta-Quinta de 29 e 30 de abril pode redefinir o ciclo de juros local, o humor do mercado externo e, dependendo do que vier do Oriente Médio, até mesmo o patamar do petróleo. Raramente uma semana concentrou tantas decisões com potencial de impacto simultâneo sobre a economia brasileira.
Fontes desta edição:
Federal Reserve (comunicado FOMC 18/03/2026 e ata) · Kiplinger · Polymarket · Wells Fargo Investment Institute · Banco Central do Brasil (Boletim Focus 27/04/2026) · Reuters · Investing.com · Poder360 · Infomoney · Exame · Diário do Grande ABC · Money Times · CNN Brasil · CaixaBank Research (semana 17-24/04/2026) · Bloomberg Línea · IMF World Economic Outlook, abril de 2026 · BCE (ata de março/2026) · Observador · Sapo/Terra · Rankia · Seu Dinheiro · Portal IN.
*As informações dessa newsletter têm caráter informativo e não constituem recomendação de investimento.